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Quinta-feira, Janeiro 31, 2008
Ninguém assiste ao Big Brother
Se a audiência do Big Brother Brasil consistisse apenas na declaração assumptível de cada espectador, o programa estaria predestinado à falência desde os seus primórdios.
Um programa de cunho totalmente apelativo, em que vivem participantes acéfalos, ociosos, doentiamente narcisistas e cuja personalidade não motiva tipo algum de identificação com o povo brasileiro não é lá o perfil de quadro televisivo que reflita alguma característica da nossa sociedade. Né? Acontece mais ou menos a mesma coisa com o Gugu, com o Faustão e com o Zorra Total: ninguém nunca pára pra ver. As pessoas mais inteligentes que eu já conheci em toda a minha vida só ouviram falar na existência de tais programas coincidentemente quando, sem querer, estavam zapeando à procura algo na TVE, ou na casa de algum parente ignorante. Aí involuntariamente viram. É incrível.
Inacreditável mesmo, porém, é o discurso cheio de maestria e propriedade que todos adotam para criticar as piadas que se repetem semanalmente, a burrice dos participantes que se mantém há muitas edições, a superficialidade das reportagens dominicais... só zapeando com o controle remoto.
Se o ato de sentar-se em frente à televisão para assistir a algumas pessoas falando bobagem é algo passível de reprovação, mais condenável ainda é não ter a capacidade crítica suficiente para assistir e permanecer-se incólume às idiotices alheias pra confessar que viu sim, e daí? Pega mal mesmo é quando acontece o que eu presenciei semana passada; uma figura muito importante da nata intelectual gaúcha afirmando que “ora, eu nunca perdi meu tempo pra olhar essa coisa ridícula, cheia de gente estúpida e que só quer mesmo se exibir. Nem são tão bonitas assim. A mais bonita dessa edição é a gaúcha, claro. Mas eu só sei porque ouvi falar”.
Aham, ok, eu também tenho coisas mais interessantes pra fazer.
Publicado por Lella às 12:28 AM
Quinta-feira, Janeiro 03, 2008
Nessas datas festivais as quais acabamos de vivenciar é comum que se ouçam comentários céticos acerca das excessivas superstições - positivas, claro - presentes nesse período de final/começo de ano. Sempre com aquela justificativa de que um ano nada mais é do que uma convenção social estabelecida a fim, prioritariamente, de uma organização sistemática, de uma unidade abstrata que mede um determinado período et cetera.
E aí, nisso que Milan Kundera chamou sabiamente de ceticismo mudando, estagna-se dentro de um pessimismo acomodado, uma resignação descrente, tão tola quanto a ignorância de achar que um réveillon abre portas para mudanças. Então eu prefiro me levar pelo povão, acreditar na magia do dia primeiro de janeiro, criar mil promessas, fazer projetos e estabelecer metas, ter perspectivas. E agir por elas, lógico. E os céticos, intelectualóides, sinceramente, que passem o ano inteiro achando que não vale à pena tentar.
*
Pois bem, eis que chegou o dia dois de janeiro de dois mil e oito; primeiro dia útil do mês. Encaminhei-me, num estado de total frenesi, ao – uau! – Banco do Brasil. Meu primeiro grande feitio do ano: uma transferência de poupança para conta corrente. A poupança estava em meu nome. A conta corrente também. O valor, não importava. Não seria usado mesmo. Um procedimento aparentemente rotineiro tornou-se uma ação de grande emoção, ao constatar na tela do caixa eletrônico a ausência da mensagem “será cobrada CPMF na transação. Deseja continuar?”. Sim, eu realizei uma transferência bancária apenas para sentir o gosto de não estar pagando um imposto!
O fim da cobrança da CPMF, sabemos, causará um grande rombo nos cofres públicos. Milhões de reais deixarão de se encaminhar ao tesouro do governo, e isso seria realmente lamentável se fizesse alguma diferença efetiva à população. Com a carga tributária que o Brasil possui – uma das maiores do mundo –, nosso país estaria, de fato, assistindo àquilo que o presidente Lula chamou de “espetáculo do desenvolvimento”. Além da riqueza taxativa, nosso país possui um PIB relativamente satisfatório, e inclusive entrou pela primeira vez, no último ano, para a lista da ONU de países em considerável ascendência econômica. Ou seja: uma potência! A grande questã é: não vemos onde esse crescimento ocorre. Não sabemos onde esse dinheiro vai parar. Aliás, sabemos muito bem. Temos assistido a um grande espetáculo, sim, mas as conseqüências da falência nacional resultaram em um outro espetáculo brasileiro, muito popular e polêmico nas telas de cinema.
Um dia eu vou levantar a bandeira da sonegação. Nós pagamos, pagamos, pagamos quase o dobro do valor de um determinado produto para, no que prevê a Constituição, termos direito a saúde, educação, segurança pública. Mas no fim das contas, se tivermos condições, temos que pagar tudo de novo, por fora, devido à insuficiência dos serviços públicos. E quem não tem condição de pagar duas vezes se fode. Então vamos comprar tudo pirata!!!
*
Inicia-se um novo ciclo. Aproveitemos para refletir sobre nossas ações, criemos sonhos, façamos projetos, pensemos no nosso presente, ao invés do futuro, mas em prol dele, sempre. Ainda que saibamos do abstracionismo do tempo, usemos-no como uma vã justificativa para apenas tentar algo. Pensemos nas nossas atitudes, ajudemos velhinhas a atravessarem a rua, façamos, sem peso na consciência, transferências, muitas transferências para contas corrente.
De preferência para a minha.
Publicado por Lella às 12:44 AM
Quinta-feira, Abril 19, 2007
A arte e a ciência de dormir em salas de aula
Dormir nas aulas sempre foi uma proeza que eu realizava com a maior facilidade do mundo. Dos oito períodos da escola, eu dormia mais ou menos em quatro ou cinco, quando não faltava às aulas para ficar em casa. Dormindo, claro.
Inúmeras justificativas tentava eu atribuir a esse fato tão curioso que era a minha capacidade de entrar na mais absoluta inércia quando todos os meus colegas estavam atentos às explicações do docente. Problemas fisiológicos (anemia? estafa física?), psicológicos (falta de perspectiva profissional no curso técnico escolhido?desestímulo por parte dos professores? problemas afetivos?), disfunções dos mais diversos caracteres eram considerados e eis que eu comecei a estudar à tarde, e não mais sofri desse mal.
Até que comecei a trabalhar.
De manhã.
Inicialmente parecia estar eximida das questões dormentes, mas poucos meses depois começou a me pegar de jeito aquele soninho, tão familiar, e eu cheguei à conclusão de que nasci pra isso mesmo.
Mas, como diz o título deste texto, a minha arte é de dormir em salas de aula (sim, porque Dormir é uma arte, e deveria ser remunerada) e eu não poderia fugir desse destino tão insólito que a mim foi fadado. Então, durante todos os intervalos, eu desço para o terceiro andar, o mais ermo do prédio 8, escolho uma salinha de aula ao fim do corredor, acomodo-me numa poltrona e... durmo aquele soninho gostoso.
E por causa dessa minha tão incomum aptidão eu já passei pela experiência de - meninas, morram de inveja - ser acordada por, nada mais, nada menos que o tão estimado escritor Assis Brasil, por exemplo. Sem contar com todas as senhoras que realizam a limpeza do terceiro andar, mais os casais que procuram privacidade para conversar, ou algum eventual vivente que queira ler algum livro (de vez em quando isso acontece na faculdade de Letras).
Aí é nessas horas que a gente se vê mais injustiçado do que os pobre-coitados que escolheram algum curso alternativo, tipo Música, Artes Cênicas, e ouviram dizer que isso não era lá profissão que se escollhesse, ou se não havia um dom mais rentável pra se desenvolver que não fosse tocar cravo, por exemplo. A gente tem um talento excepcional como esse, não ganha nada, tampouco é reconhecido por pessoas que não sejam as senhoras que realizam a limpeza do terceiro andar, os casais que procuram privacidade para conversar, ou algum eventual vivente que queira ler algum livro.
Aiai...
Publicado por Lella às 7:21 PM
Segunda-feira, Abril 02, 2007
Birthday
De: Eles
They say it's your birthday
It's my birthday too, yea
They say it's your birthday
We're gonna have a good time
I'm glad it's your birthday
Happy birthday to youBridge--Yes we're going to a party, party
Yes we're going to a party, party
Yes we're going to a party, party
I would like you to dance (Birthday)
Take cha cha cha chance (Birthday)
I would like you to dance (Birthday)
Oh, yea(Repeat Bridge)They say it's your birthday
It's my birthday too, yea
They say it's your birthday
We're gonna have a good time
I'm glad it's your birthday
Happy Birthday to you
Foto lindosamente feita por Simone R. Obrigada, moça!
PS: EU TENHO O DIREITO DE SER MUITO EGOCÊNTRICA NESTA PRESENTE DATA. GRATA.
Publicado por Lella às 4:37 PM
Quinta-feira, Março 22, 2007
Lira dos vinte anos II
Há alguns anos, eu fazia mil conjecturas sobre como deveria ser quando chegasse à casa dos vinte.
Vinte anos, idade redondinha, marco do início de uma nova fase. Amadurecimento, certeza, definições.
Quando eu tiver vinte anos, pensava, já serei bem grande; daquelas mulheres altonas, super-arrumadas, com o cabelo que nunca despenteia e maquiagem que nunca sai. Com vinte anos a gente já é independente, mora sozinha num apartamento em Santa Tereza, tem um armário só para scarpins, renda própria, fixa e uma carreira bem definida. Tem uma vida pessoal estável e uma liberdade que deus-me-livre. Aos vinte anos a gente percorre a Avenida Brasil em alta velocidade ouvindo Led Zeppelin a toda altura. Depois dos vinte a vida é só trabalho - trabalho muito bem escolhido e prazeroso, diga-se de passagem - e viagens pelo mundo.
Quando a gente tem vinte anos, já tem uma carga de leitura que também deus-me-livre e uma concepção de mundo admirável.
Vinte anos é a porta da liberdade, o começo da vida.
Mas eis que então a gente chega de fato à tão sonhada idade.
Aí a gente vê que o cabelo não está nada penteado - porém muito estiloso, modéstia à parte -, e a maquiagem... que maquiagem?
A gente tem um armário com alguns scarpins, mas sempre acaba por escolher sapatilhinhas ou sandalinhas mais confortáveis.
Com vinte anos a gente ainda pode contar com a amizade e o colo da mãe e não precisa descer de Santa Tereza: é só bater na porta do quarto ao lado. Nessa idade a gente ainda estuda e fica pensando em mil profissões que se pode seguir, sem chegar a conclusão alguma. A gente tem o mundo à frente.
Não percorre, também, a Brasil ouvindo música alta, mas pode andar de trem e ouvir um discman discreto ou até mesmo ir lendo um livrozinho.
Livrozinhos, aliás, cuja lista torna-se cada vez maior. Quanto mais se lê, mais se percebe o quão impossível é ter alguma concepção exata a respeito de qualquer coisa nesse mundo e que isso nunca vai acabar.
Nessa idade a gente trabalha mais ou menos, tem um salário mais ou menos, mas tem perspectivas de mais.
A gente faz vinte anos e percebe que a vida não começa agora. E é aí que a gente vê que às vezes é muito bom quando nada acontece conforme o previsto.
Ok, vocês já entenderam.
Publicado por Lella às 7:51 PM
Quinta-feira, Janeiro 04, 2007
Exupéry carregará eternamente consigo o estigma de ter dado à luz uma obra prima exageradamente mencionada por candidatas a Miss Universo. O que algumas pessoas talvez não saibam é que há a metaforização de uma história altamente existencial e até mesmo filosófica na narrativa.
Uma vez eu escrevi sobre a famosa Raposa, para homenagear o dia da amizade e agradecer a algumas pessoas pelas suas simples existências. Talvez nem todos saibam do verdadeiro valor da lealdade, do companheirismo, da cumplicidade. Mas eu sempre soube como isso é bom.
Talvez nem todos saibam da grandeza existente no fato de se possuir um grande amigo; pra passear pelo centro da cidade e comprar artesanatos, ou pra viajar no trem conversando sobre música ou pra passar uma tarde inteira na grama sem nada pra conversar, porém tudo pra compartilhar. Mas eu sempre soube.
O que eu não sabia era que crescer ao lado de alguém pudesse acarretar em ter a sua própria personalidade reduzida a uma vestimenta, uma bata indiana, e ouvir que sua essência foi perdida porque você hoje prefere scarpins a sandálias de couro.
O que eu não conhecia era essa dor meio aguda, meio grave, meio plural e meio singular, que dói e não tem jeito, que dói cheia de vazio, ao se deparar com a sua própria insignificância e solidão.
Ê, dor de corno da porra.
Se Deus ao menos tivesse me dado alguns atributos, eu me candidataria a Miss-qualquer-coisa e teria coisas mais importantes pra me preocupar; dormiria feliz com a história de uma loirinho meio maluco que viajou o mundo. Mas, como não é o meu caso, com licença que agora eu vou chorar.
Publicado por Lella às 8:44 AM
Quarta-feira, Novembro 22, 2006
Porque me destes o sentimento de um rumo,
Se o rumo que busco não busco
Quando penso que vejo
Quem continua vendo
Enquanto estou pensando?
Não compreendo compreender, nem sei
Se hei de ser, sendo nada, o que serei.
Sonho sem quanse já ser, perco sem nunca ter tido,
E comecei a morrer muito antes de ter vivido.
Por que, enganado,
Julguei ser meu o que era meu?
(Fernando Pessoa)
Publicado por Lella às 12:08 AM
Quinta-feira, Outubro 26, 2006
Êêê, que legal, será que tem mais alguém disposto a entrar na fila e me fazer de otária?
Publicado por Lella às 12:45 AM
Terça-feira, Outubro 03, 2006
A impressão que eu tive hoje era a de que, em qualquer lugar onde houvesse dois ou mais viventes conversando, o assunto seria único: eleições. No ônibus, no balanço sonolento do trem, na fila da padaria, no intervalo pro cigarrinho, só se falava nisso. Os deputados eleitos, a lógica quase burra que traz ao Estado um segundo turno digno de voto nulo, a representação no congresso da juventude que acha que tá tudo beleza...
Fiquei até contente em ver o povo entusiasmado. Será que dessa vez haverá uma participação efetiva no que diz respeito direto às nossas vidas? Será que agora vai?
Vai?
Não vai.
Durante um longo intervalo de tempo, grande parte da população vive atarefada com seus percalços cotidianos. É muito trabalho, filho doente, irmão sem dinheiro, semana de provas. No fim das contas, a disponibilidade é pouca ou quase nenhuma para preocupar-se com questões parlamentares. Sim, temos nossos interesses próprios, e em curto prazo.
Mas de quatro em quatro anos, a empolgação faz-se necessária. Obrigatória. Quem não fala mal do governo e não discute as eleições é um alienado. Funciona mais ou menos como a Copa do Mundo, num paralelo mais infeliz: todo mundo sabe o condicionamento físico ideal do jogador, todo mundo mete o bedelho no impedimento, dá palpite no jogo, no juiz, dá até aula de futebol. Mas ao longo dos outros anos não acompanha a tabela do Brasileirão. Tomando uma parte, uma grande parte, pelo todo, é claro.
E assim as coisas seguem. Assistimos à propaganda eleitoral, crentes de que em dez segundos de apresentação teremos a capacidade de avaliar com convicção o preparo dos nossos candidatos. E somos muito politizados por isso. Damos risada do ex-cassado que agora é caçador, digo, senador, do eleito que diz por aí que rouba. E mais que divertido, é fácil culpar a nação pela sua estupidez e passividade, colocando-se do lado de fora da confusão, como se a nossa consciência crítica de auto-lamentação já fosse suficiente pra nos eximir da problemática na qual se encontra todo o Brasil e da culpa por colocar essa banda podre no controle. Porque o povo é hipócrita. Porque NÓS somos o povo. Porque nós somos hipócritas.
Aproveitemos, contudo. Há ainda mais um mês para conversarmos energicamente sobre nosso papel político. Depois só daqui a quatro anos. E aproveitemos ainda mais, façamos com mais afinco nossas sinapses, pois eu acho que a próxima emoção só vem no próximo ano: o vencedor do Big Brother.
Publicado por Lella às 12:43 AM
Quarta-feira, Setembro 13, 2006
Chocada. Eis o estado no qual agora me encontro. Eis o estado no qual me encontro há quase dez horas.
Ilusão utópica, ideológica a minha, ao pensar que o Brasil, país de indescritível miscigenação étnica e cultural, estava livre da palavra preconceito. Devaneio o meu foi imaginar que ignorância e alienação seriam palavras de desconhecimento das pessoas letradas, cultas, teoricamente esclarecidas.
Confesso que nunca imaginei que, assistindo a uma aula de Literatura, junto a alunos do quarto semestre, universitários adultos, deparar-me-ia com uma situação como a que tive que enfrentar hoje. Discutia-se o livro A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, obra que retrata as condições subumanas nas quais vive uma alagoana de dezenove anos que vai tentar a vida no Rio de Janeiro. O tema da discussão não foi problema sócio-econômico, contexto histórico; não se questionou em nenhum momento o descaso de autoridades para com certa parte da população brasileira. O assunto girou, basicamente, na condição genética, à qual é submetido um nordestino: o destino de ser ignorante, mal sucedido na vida, doente. O atavismo, que o sujeita a ser, obrigatoriamente, porteiro, metalúrgico ou doméstica, as únicas profissões para a qual a raça serve. O instinto animal, que faz com que dois conterrâneos nordestinos se reconheçam na rua, pelo cheiro.
Tal fato, talvez, fosse compreensível - justificável? - se tivesse ocorrido em uma reunião de skin heads.
Entretanto, é inadmissível que um assunto de cunho ultrapassado, ariano, racista e preconceituoso seja tratado dentro de uma sala de aula, no Brasil, no ano de 2006. E, não obstante, seja tratado dentro de uma sala onde há pessoas que se dizem eruditas, esclarecidas, qualificadas: os futuros professores, que, por um lado, defendem uma educação longe do apriorismo, e que, por outro, distinguem a inteligência por raças, negando suas próprias origens.
Mas ocorreu. E eu fiquei calada. Chocada, estupefata, atônita, incrédula. Calada.
Fica este post, hoje, como um protesto. Um protesto atrasado e covarde.
Publicado por Lella às 12:30 AM
Quinta-feira, Agosto 24, 2006
Aula de Semiótica
Jujubinha* - Bah, como a professora de Semiótica é ruim!
Lella - Ahn.
Jujubinha - Tipo, ela não soube dizer qual era a diferença entre Ícone e Símbolo!
Lella< - Ahn.... e qual é?
Jujubinha - Não sei!
Brown* - Eu... olha, eu acho que o símbolo é uma figura que representa algo, entendeu? O ícone, tipo... tipo, já é aquilo que remete diretamente a algo, não representa, mas remete.
Lella - Ahn.
Jujubinha - Claro que é isso! É óbvio! E ela não sabia...
Lella - Ahn... tem um exemplo claro?
Brown - Tipo.... tipo, fogueira! O ícone da fogueira é o fogo!
Lella - E o símbolo?
Brown - A lenha!!!!
Lella - Ahn.
Jujubinha - Tipo, o Rio de Janeiro! O símbolo do Rio de Janeiro é a praia de Ipanema.
Lella - Eu acho que é o Corcovado.
Jujubinha - Não, tipo, é a praia de Ipanema!
Brown - Tipo, eu acho que é o Corcovado ou tipo, o Pão de Açúcar também.
Jujubinha - Não, gente, é a praia de Ipanema, até lá no Japão os japinha fica cantando no karaokê a música da Garota de Ipanema!
Lella - Mas tem uma representação cultural, e não turística, estética, entendeu?.
Brown - Quando se pensa no Rio, vem logo à mente a imagem do Cristo, não vem?
Jujubinha - Aaaah, não, quando EU penso no Rio, tipo, vem logo a imagem da praia de Ipanema, com aquelas típicas ondinhas pretas na calçada.
Lella - As ondinhas pretas são típicas de Copacabana.
Jujubinha - Mas sabe como são esses gringos ignorantes, né, tô falando dos gringos, tipo, eles não sabem a diferença entre Ipanema e Copacabana. Esse pessoal é tudo meio burrinho.
Lella - Aham, é sim.
* - As identidades marcadas com "*" foram trocadas para evitar constrangimentos.
Publicado por Lella às 12:00 PM
Terça-feira, Agosto 15, 2006
Nesse fim de semana, acredito que boa parte dos brasileiros ficou sabendo do seqüestro de um repórter que há menos de um ano havia deixado uma pequena emissora regional - a RBS TV - para trabalhar na Rede Globo. Como se já não bastasse assistirmos às cenas de tortura, horror e desespero no oriente, agora estamos sujeitos também às mesmas atrocidades, estas cometidas por um poder paralelo que nem ao menos ideologia religiosa tem pra se justificar a guerra que, aliás, religiosa ou não, nunca é santa.
Mas voltando ao que interessa. Como se é sabido, os manifestantes seqüestradores exigiram a exibição de um vídeo em rede nacional, onde se eram reivindicadas algumas regras severas, aplicadas em presidiários de maior perigo à população.
Em virtudes de uma situação desse cunho, é necessário que se encare as coisas de forma cômica, antes que todos percebam o trágico e cometam um suicídio em massa. Porque agora só falta uma notícia dessas no jornal pra consumar de vez a decadência da humanidade.
Enfim, estou dando mil voltas e não falo o que quero. Talvez porque não saiba bem por onde começar...
Quero falar sobre Direitos Humanos. Seria destrato, falta para com o direito humano de um indivíduo cujo caráter humano já foi perdido, se por opção própria (se alguém me convencer que a cadeia como destino não é um puro ato de escolha eu apago esse post e ainda peço desculpas) ele não respeita a integridade de outrem, a dignidade de um semelhante? O indivíduo que estupra, tortura, mata ou destrói o patrimônio que uma pessoa construiu com esforço é digno de piedade e/ou de protesto a respeito das regras de punição, previamente conhecidas, aplicadas a ele?
Tal situação chegou a tamanho descontrole porque no Brasil, um dos maiores países em extensão física do mundo, possui UMA rede penitenciária eficaz.
Imagine no dia em que houver mais.
Mas fiquemos tranqüilos, até lá já terão tomado posse oficial do país o primeiro, o terceiro, o vermelho, o verde e os demais comandos das capitais.
Publicado por Lella às 3:57 PM
Segunda-feira, Julho 03, 2006
Aqui na terra (...) tem muito samba, muito choro e roquenról...
É, resta-nos ainda o samba, o choro e o róque, porque já não há mais, creio, futebol pra assistirmos durante um bom tempo.
Ah, sim, pois é, cá estou novamente escrevendo depois de um grande período. Foi devido a compromissos acadêmicos esse meu sumiço, mas é através deste post que venho comunicar a minha volta. Volta, aliás, que pra falar a verdade não será pra dissertar a respeito de coisas muito legais; do meu ponto de vista soem até um tanto quanto clichês, mas eu acabei de receber um e-mail com uma notícia, esse tipo de notícia de que a gente dá risada pra não chorar, e preciso falar sobre ele.
Eis que então o capitão da seleção - com o perdão da rima triplamente horrorosa - volta às terras brasileiras. E um grupo de pessoas dedica um turno inteiro do seu dia para ir ao aeroporto vaiá-lo e gritar eu tenho v-e-r-g-o-n-h-a de vocêêês!, ou algo do gênero.
Puxa que puxa. Um indivíduo provavelmente pára de trabalhar ou deixa de ir à escola, gasta uns bons trocados para chegar ao aeroporto (com gasolina de carro, passagem de ônibus, sola de tênis, qualquer coisa, o fato é que ninguém mora na porcaria do aeroporto pra não obter nenhum gasto até chegar lá) para fazer com que o Cafu saiba que no mínimo metade do Brasil está com vergonha da seleção?
Pobre de mim, na minha inocência utópica, imaginei que com a eliminação do Brasil na Copa as pessoas lembrar-se-iam que que ainda há presídios em rebelião, gente passando fome, conflitos entre facções rivais, bala perdida, polícia corrupta, judiciário corrupto, executivo corrupto, legislativo corrupto, enfim, no nosso bom português, a porra toda errada, mas o pessoal agora morre de vergonha da seleção brasileira.
Aí me dá uma vontadezinha de chorar naquele trecho do Hino Nacional, que diz "entre outras mil, é tu Brasil, ó pátria amada...", que o povão todo cantou antes das partidas, e pensam que eu estou com emoção pré-jogo.
Me dá uma vontadezinha de chorar porque eu odeio saber que há quem enquanto canta o Hino e abraça a bandeira, simultaneamente pisa a bandeira - num sentido muito mais conotativo da coisa - declarando amor à pátria, provavelmente fazendo questão pensar que a pátria é composta por 11 titulares, 12 reservas e uma comissão técnica.
Bom, eu acho que eu também dedicaria um turno da minha manhã, iria até o aeroporto e também gritaria: Eu tenho v-e-r-g-o-n-h-a de vocêêês!!!.
Pro aeroporto inteiro.
Publicado por Lella às 1:37 PM
Sábado, Abril 22, 2006
Eu tenho um certo tipo de aversão às pessoas que dedicam parte do seu tempo a fazer comentários sobre a vida alheia ou falar em demasia a respeito de cosméticos. E existem algumas pessoas assim no acervo onde eu trabalho. Então essa semana eu decidi trabalhar ouvindo discman, assim poderia privar-me de ser submetida à condição de ser uma fofoqueira passiva.
(Estar munida com um discman significa necessariamente portar uma caixinha, ou para os mais mudérnicos, uma, ou um case, com a discografia completa dos Beatles. É muito interessante andar de trem às seis da manhã ouvindo, por exemplo, Birthday, uma música paradoxal às expressões apáticas daqueles que estão nos vagões, demonstrando explicitamente que a cama ainda seria preferência. Caminhar pela cidade no momento em que ela está a acordar, numa mistura de caos sonolento com neblina matinal, ouvindo Free As a Bird é uma emoção indescritível...)
Mas deixe-me contar o que Beatles tem a ver com fofoca passiva. Resolvi ir trabalhar ouvindo Beatles, a fim de isolar-me totalmente daquele mundo. Ah, sim, só mais um parêntesis: (é interessante também observar as pessoas no acervo conversando, gesticulando e gargalhando surdamente, enquanto só se toca, no seu mundo, Penny Lane). Ao final do expediente, quis mostrar a um amigo a versão de And your bird can sing que há no Anthology, aquela engraçadinha. Conversa vai, conversa vem, eis que ele me faz a perguntinha mais cretina do mundo:
- Qual o melhor álbum dos Beatles?
Respondi que não havia o melhor, que cada um possuía sua peculiaridade de acordo com a época, e que talvez um Sgt. Peppers não fosse tão bom se não viesse antes do Revolver. Vocês entendem? Fiquei mais alguns minutos redundando em reflexões, vejamos qual o mais tecnicamente perfeito... ããh... Abbey Road? Não, mas o Rubber também... é.... não existe. Ou melhor, existem: todos.
E o que Beatles tem a ver com fofoca passiva? Vejam bem, não fosse pela fofoca, eu não experimentaria a sensação acima descrita. Também não daria aquele discurso super objetivo ao meu colega. E claro, não estaria aqui escrevendo essas coisas que vocês já sabem. Oras.
Publicado por Lella às 2:51 PM
Quinta-feira, Abril 06, 2006
Eu peço desculpas às pessoas que não gostam de relatos diários, mas esse faz-se necessário, seja pela importância dos acontecimentos, ou pela minha displicência diante deles.
Houve ontem, no Instituto Estadual do Livro, um coquetel de lançamento da biografia do escritor gaúcho Josué Guimarães, cuja pesquisa foi realizada no ALJOG (Acervo Literário Josué Guimarães), onde eu trabalho. Recebi o convite com antecedência e fui informada que se tratava de uma pequena comemoração pelo lançamento do livro, uma singela homenagem aos vinte anos de morte do tão consagrado escritor. Então, após a última aula do dia, segui para o tal coquetel.
Lá chegando, os processos burocráticos tão comuns na vida cotidiana faziam-se presentes. Assinar nome, número do cêpêéfe, telefone, apresentação do convite...
- Hein, convite? Não, não, eu sou A Pesquisadora do Aljog, não preciso de convite.
Após ser olhada dos pés à cabeça, permitiram a minha entrada.
Bom, e foi naquele momento em que eu tive a certeza de que deveria ter seguido diretamente para a minha casa, para fazer algum trabalho, ouvir um cd, ler um livro ou qualquer coisa que não fosse estar ali no saguão da porcaria do Instituto Estadual do Livro.
Estava lá a imprensa, registrando a nata intelectual gaúcha presente e os demais convidados, todos em traje social, e uma certa Pesquisadora, de saia jeans, mochila, sapatilha verde-florescente e cabelo assanhado.
Enfim, avistei a professora, coordenadora do projeto, conversando com uma senhora no centro do salão. Fui até lá para cumprimentá-la, interrompendo sutilmente a conversa:
- Opa, opa, dá licença, oi, professora! Que legal está a festa!
- Oi, Emanuella, que bom que você veio!
Então, depois de ficar sorrindo inutilmente e percebendo que o diálogo não renderia nada mais além do que um provavelmente será que chove?, retirei-me, fiquei próxima a uma pilastra e fui jogar Snake II, no meu celular. Daquela pilastra havia uma vista quase panorâmica do salão de festas. A professora-coordenadora conversava alegremente com aquela senhora, que por sinal me parecia muito familiar. Ela parecia muito a Lya Luft.
Não parecia. Era a Lya Luft.
Acredito que tenham se passado cerca de vinte minutos que mais pareciam vinte horas, e transitava por mim o Charles Kiefer, e a Lya Luft, a professora-coordenadora, e eu sorrindo amarelo para todos sem saber que diabos fazia ali.
Ainda com o celular na mãe, interrompi o jogo e, olhando um pouco para cima não consegui moderar e soltei um ai, que saco..., sem perceber que em minha direção vinha, com as mãos no bolso, o Luís Fernando Veríssimo. Ai, que saco de mim mesma.
Interrompi novamente a conversa da professora-coordenadora, que já estava conversando com outras pessoas que eu não sabia quem eram, não queria saber e já estava morrendo de raiva de quem soubesse:
- Professora, está muito tarde, preciso ir embora.
- Tarde? Mas nem são sete horas ainda!
- É muito tarde, professora. Parabéns pela festa! Tchau!
Vou resumir o resto: fui embora do recinto, esqueci de pegar o livro ao qual eu tinha direito, peguei um ônibus errado e ainda comprei um pedaço de rocambole napotilano horroroso que estava seco e me deu uma sensação de sede durante toda a noite.
Diversas vezes eu usei aquela célebre sentença do Caetano, ¿de perto ninguém é normal...¿, como desculpa para alguns atos meus, talvez incompreensíveis. Mas o dia de ontem fez-me pensar que eu consigo realizar a proeza de não o ser nem de longe.
Publicado por Lella às 3:34 PM
Segunda-feira, Março 13, 2006
Eu não quis acreditar quando uma professora disse, no primeiro semestre, que tudo iria passar rápido demais. Não que tudo já tenha efetivamente se consumado em sua totalidade, mas enfim, eu já me considero com meio caminho andado.
Eis que eu me encontro já na segunda semana de aula, perguntando-me, quase que diariamente, ora bolas, que diabos faço eu aqui?
Não há respostas.
Tudo bem que por vezes eu tenho uma vontade imensa de sair correndo e não voltar nunca mais; tudo bem também que no semestre passado eu quis muito jogar pela janela aquele Ilíada metade português e metade grego que me dava medo, e só não o fiz porque, afinal, ele não era meu. Ah, sim, e tudo bem que eu diga pra todo mundo o quão previsível é o curso e blábláblá, porque no fim das contas eu não me imagino fazendo outra coisa e definitivamente, eu adoro essa porcaria aqui.
Publicado por Lella às 4:04 PM
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